Contexto geral
Esta tabela sistematiza um conjunto de vacinas que, em Portugal, não integram o calendário universal do Programa Nacional de Vacinação (PNV), mas que têm relevância clínica em determinados grupos etários, contextos epidemiológicos ou situações de risco acrescido.
Meningococo B
No meningococo do grupo B, a vacina pode constar do PNV para lactentes em esquema de rotina, mas mantém utilidade extra-PNV em adolescentes e adultos com risco acrescido, incluindo asplenia, défices do complemento, terapêutica anti-C5 e contactos em contexto de surto.
O esquema técnico depende da idade de início — com maior número de doses no primeiro semestre de vida e reforço no segundo ano — e pode requerer reforços adicionais em risco contínuo.
Meningococo ACWY
As vacinas contra os grupos ACWY têm um papel adicional fora do calendário universal.
Embora o PNV preveja uma dose universal em idade pré-escolar ou adolescente, há um conjunto de situações que ficam fora dessa janela, como:
• adolescentes mais velhos sem vacinação prévia,
• estudantes em dormitórios universitários,
• viajantes para áreas de maior incidência,
• peregrinos do Hajj,
• profissionais com maior risco ocupacional.
Nestes cenários, a vacina é usada como extra-PNV, tipicamente em dose única, com reforço a cada cinco anos se o risco se mantiver.
Rotavírus
No rotavírus, o aspeto mais crítico é a janela etária.
As vacinas orais devem ser iniciadas entre as 6–12 semanas e o esquema deve estar completo até 24–32 semanas (consoante a formulação).
Fora dessa idade não devem ser iniciadas.
Em Portugal, estão incluídas no PNV apenas para grupos de risco, mas podem ser recomendadas como extra-PNV em lactentes saudáveis para reduzir internamentos por gastroenterite grave.
Varicela
A vacina da varicela não integra o PNV universal, mas é amplamente recomendada por sociedades científicas em adolescentes e adultos suscetíveis, incluindo profissionais de saúde, cuidadores de imunodeprimidos e mulheres em idade fértil.
Além da prevenção primária, tem papel na profilaxia pós-exposição em contactos suscetíveis se administrada até 3–5 dias após contacto significativo.
Em grupos de alto risco, como grávidas suscetíveis ou imunodeprimidos, pode ser necessária imunoglobulina específica.
Hepatite A
No caso da hepatite A, o PNV contempla apenas grupos com risco acrescido, como hepatopatas, VIH, hemofílicos, candidatos a transplante e homens que têm sexo com homens.
Fora destes contextos, a vacinação é extra-PNV, sobretudo em viajantes para áreas de endemicidade intermédia/alta.
Em surtos comunitários ou contactos de caso índice, pode ser usada como pós-exposição, isoladamente ou combinada com imunoglobulina, sendo recomendada segunda dose para imunidade prolongada.
HPV
No HPV, a vacinação universal abrange pré-adolescentes, mas muitos cenários ficam fora do programa — incluindo rapazes fora da coorte, HSH, imunodeprimidos e jovens adultos sexualmente ativos.
Nesses casos, a vacinação é usada para reduzir risco de lesões intraepiteliais, neoplasias anogenitais e condilomas, com esquemas a 2 ou 3 doses conforme idade e condição clínica.
Interpretação prática
No conjunto, esta tabela ajuda a distinguir três planos que frequentemente se confundem:
1) o esquema técnico completo definido em bula;
2) o esquema do PNV, que reflete prioridades de saúde pública;
3) o uso clínico extra-PNV, orientado pelo risco individual, epidemiologia local e recomendações de sociedades científicas.
Para o médico, o objetivo é posicionar o doente no plano correto, ponderando idade, risco, contexto e oportunidade, sem perder a janela etária quando ela existe.