Avaliação inicial
Quando um utente apresenta suspeita de trombose venosa superficial, também designada tromboflebite superficial, é essencial avaliar os fatores predisponentes. Estes incluem alterações vasculares, como trauma local ou punção venosa, estase venosa associada a varizes, insuficiência venosa crónica, gravidez ou imobilização prolongada, e estados protrombóticos, como neoplasia, trombofilias ou terapêutica hormonal.
A tromboflebite migratória, recorrente ou multifocal deve levantar suspeita de neoplasia oculta, particularmente adenocarcinoma pancreático, devendo a investigação ser orientada pelo contexto clínico.
Achados clínicos sugestivos
O diagnóstico é frequentemente sugerido pela clínica. Deve procurar-se um cordão venoso superficial endurecido e palpável, geralmente sensível ou doloroso, seguindo o trajeto da veia. A pele adjacente pode estar quente e eritematosa, com edema local discreto. Quando existe edema importante ou difuso de todo o membro, deve ser considerada a possibilidade de trombose venosa profunda associada.
Papel do ecodoppler venoso
O ecodoppler venoso é o exame complementar de referência para confirmar a trombose venosa superficial, avaliar a sua extensão e excluir trombose venosa profunda. Em casos selecionados de TVS claramente localizada em trajeto varicoso distal ao joelho, sem fatores de risco para extensão ou tromboembolismo venoso, o ecodoppler pode não ser necessário.
No entanto, deve ser realizado particularmente quando existe dúvida diagnóstica, suspeita de TVP, localização acima do joelho, envolvimento do terço superior da coxa ou região poplítea, trombose extensa ou presença de fatores predisponentes relevantes.
Exclusão de trombose venosa profunda
Se o ecodoppler diagnosticar trombose venosa profunda associada, a abordagem deve seguir as recomendações específicas para TVP, com anticoagulação em dose terapêutica e duração ajustada ao contexto clínico.
Localização e extensão do trombo
Confirmada a trombose venosa superficial, a decisão terapêutica depende sobretudo da localização, extensão e proximidade ao sistema venoso profundo. A distância à junção safeno-femoral é particularmente relevante.
Quando o trombo se encontra a menos de 3 cm da junção safeno-femoral, deve ser tratado de forma semelhante a uma TVP, devido ao risco de extensão para o sistema venoso profundo.
Indicação para anticoagulação
Quando o trombo se encontra a 3 cm ou mais da junção safeno-femoral, a anticoagulação está geralmente indicada se a trombose tiver extensão superior a 5 cm, se os sintomas forem intensos ou se existirem fatores de risco para extensão trombótica.
Entre estes fatores incluem-se antecedentes de TVP, neoplasia ativa, gravidez ou puerpério, terapêutica hormonal, TVS recorrente, ausência de varizes, trombofilia conhecida, doença inflamatória sistémica, trauma ou cirurgia recente.
Opções terapêuticas anticoagulantes
Nas situações com indicação para anticoagulação profilática, a duração habitualmente recomendada é de 45 dias. As opções incluem fondaparinux 2,5 mg por via subcutânea uma vez por dia, rivaroxabano 10 mg por via oral uma vez por dia ou heparina de baixo peso molecular em dose profilática ou intermédia.
A escolha deve ser individualizada de acordo com o risco hemorrágico, função renal, comorbilidades, preferências do utente e disponibilidade terapêutica.
Tratamento sintomático
Nos casos menos extensos, localizados em trajeto varicoso distal, sem fatores de risco para progressão, o tratamento pode ser apenas sintomático. Podem ser utilizados anti-inflamatórios não esteroides, tópicos ou orais, durante 7 a 14 dias. Exemplos incluem ibuprofeno 400 mg três vezes por dia ou naproxeno 500 mg duas vezes por dia, quando não existam contraindicações.
A elevação do membro e a utilização de meias de compressão podem ser consideradas como medidas adjuvantes para alívio sintomático, sobretudo em doentes com varizes ou insuficiência venosa crónica.
Diagnóstico diferencial
Quando o ecodoppler não confirma trombose venosa superficial ou profunda, devem ser ponderados diagnósticos alternativos, como celulite, erisipela, eritema nodoso, rotura de quisto de Baker, hematoma, linfangite ou insuficiência venosa superficial.
Seguimento
A reavaliação é importante quando há agravamento dos sintomas, ausência de melhoria após 7 a 14 dias, extensão proximal da trombose ou aparecimento de sinais sugestivos de TVP. A duração e intensidade da anticoagulação devem ser ajustadas às características individuais do utente e à localização do trombo.
Conclusão
A trombose venosa superficial é frequentemente benigna, mas pode associar-se a trombose venosa profunda ou embolia pulmonar em situações de maior risco. Uma abordagem estruturada, baseada na localização, extensão e fatores de risco para progressão, permite selecionar adequadamente os doentes que beneficiam de tratamento sintomático, ecodoppler ou anticoagulação.