Avaliação inicial
Perante a identificação de um pólipo gástrico na endoscopia digestiva alta, o primeiro passo é proceder à sua correta caracterização endoscópica e confirmação histológica. Deve avaliar-se a morfologia (séssil ou pediculado), a dimensão, a localização e a presença de sinais endoscópicos suspeitos. Em paralelo, é fundamental obter biópsias representativas do pólipo e da mucosa gástrica adjacente, permitindo avaliar a existência de gastrite atrófica, metaplasia intestinal ou infeção por Helicobacter pylori, fatores que condicionam o risco e o seguimento.
Classificação histológica
A decisão clínica baseia-se essencialmente no tipo histológico do pólipo, distinguindo-se quatro grandes grupos: adenomas gástricos, pólipos hiperplásicos, pólipos das glândulas fúndicas e tumores neuroendócrinos gástricos. Esta classificação é determinante, uma vez que cada subtipo apresenta comportamento biológico e risco neoplásico distintos, exigindo estratégias diferentes de resseção, vigilância ou investigação adicional.
Adenoma gástrico
Os adenomas gástricos são lesões pré-malignas e devem ser removidos por via endoscópica sempre que identificados. Após resseção completa, está indicada endoscopia de controlo cerca de 12 meses depois, com vigilância subsequente ajustada ao risco histológico, às margens de resseção e à mucosa de fundo. Na presença de resseção R0 e ausência de alterações extensas da mucosa gástrica, os intervalos de vigilância podem ser progressivamente espaçados.
Pólipo hiperplásico
Os pólipos hiperplásicos são geralmente benignos, mas estão associados a inflamação crónica da mucosa gástrica e a um risco aumentado de neoplasia síncrona. A erradicação de Helicobacter pylori é um passo essencial sempre que a infeção esteja presente. A resseção endoscópica está indicada sobretudo em pólipos ≥10 mm, sintomáticos, com displasia ou associados a anemia ou hemorragia. Pólipos pequenos e assintomáticos podem ser apenas biopsiados, sendo o seguimento determinado pelo risco da mucosa de fundo.
Pólipo das glândulas fúndicas
Os pólipos das glândulas fúndicas são habitualmente benignos e frequentemente associados ao uso prolongado de inibidores da bomba de protões. Na ausência de displasia, não requerem vigilância endoscópica sistemática. Contudo, quando surgem de forma numerosa, em idade jovem, com grande dimensão ou com displasia, deve ser ponderada a possibilidade de síndromes hereditárias, nomeadamente polipose adenomatosa familiar, iniciando a avaliação com colonoscopia total.
Tumor neuroendócrino gástrico
A abordagem dos tumores neuroendócrinos gástricos depende do tipo (I, II ou III), da dimensão, do grau histológico (Ki-67/mitoses) e da profundidade de invasão. Os tumores tipo I e II estão geralmente associados a hipergastrinemia e apresentam comportamento indolente, podendo ser seguidos com vigilância endoscópica periódica, reservando-se a resseção endoscópica para lesões maiores.
Tumor neuroendócrino gástrico tipo III
O tumor neuroendócrino gástrico tipo III é esporádico, não associado a hipergastrinemia e apresenta maior potencial metastático. Nestes casos, está indicado estadiamento formal com ecoendoscopia para avaliar a profundidade de invasão e o envolvimento ganglionar, frequentemente complementado por TC ou RM. A resseção endoscópica deve ser considerada apenas em casos muito selecionados, nomeadamente lesões <10 mm, G1 (Ki-67 ≤2%) e confinadas à mucosa ou submucosa. Na ausência destes critérios, a cirurgia é o tratamento recomendado.
Manutenção e seguimento
O seguimento após identificação ou tratamento de pólipos gástricos deve ser individualizado, integrando o tipo histológico, a presença de displasia, a mucosa de fundo e os fatores de risco do doente. Uma abordagem estruturada permite evitar vigilância excessiva em lesões benignas e assegurar a identificação precoce de situações com verdadeiro potencial neoplásico, alinhando a prática clínica com as recomendações atuais das sociedades científicas.