Diagnóstico inicial
O diagnóstico de otite média aguda baseia-se na presença de sinais inflamatórios do ouvido médio, nomeadamente membrana timpânica com abaulamento moderado a grave ou otorreia de início recente, desde que não atribuível a otite externa.
Outra possibilidade diagnóstica inclui a presença de abaulamento ligeiro da membrana timpânica associado a otalgia de início recente ou eritema intenso. O diagnóstico deve integrar sempre a história clínica e a observação otoscópica.
Avaliação da gravidade
Após confirmação diagnóstica, deve avaliar-se a presença de critérios que justificam antibioterapia imediata. Estes incluem idade inferior a 6 meses, quadro clínico grave, otite bilateral em crianças com menos de 2 anos, presença de otorreia ou episódios de otite média aguda recorrente.
O quadro clínico grave inclui habitualmente otalgia moderada a grave persistente, febre elevada ou compromisso significativo do estado geral.
Tratamento sintomático e observação
Na ausência destes critérios, pode optar-se inicialmente por tratamento sintomático associado a vigilância clínica. A analgesia pode ser realizada com paracetamol ou ibuprofeno, ajustados ao peso corporal.
Nestes casos recomenda-se reavaliação clínica em 48–72 horas, particularmente se existir agravamento ou persistência dos sintomas.
Antibioterapia de primeira linha
Se na reavaliação persistirem sinais ou sintomas compatíveis com otite média aguda, deve iniciar-se antibioterapia.
A terapêutica de primeira linha é amoxicilina oral 80–90 mg/kg/dia, administrada em intervalos de 12/12 horas, durante 5 dias.
Em crianças com menos de 2 anos, otite média recorrente ou falência terapêutica inicial, a duração deve ser prolongada para 7 dias.
Segunda linha terapêutica
Quando existe falência do tratamento com amoxicilina, utilização de amoxicilina nos 30 dias prévios ou suspeita de agentes produtores de beta-lactamases, a opção preferencial passa para amoxicilina + ácido clavulânico, utilizando o mesmo esquema posológico.
Como alternativa podem ser utilizados cefuroxima oral ou, quando necessária terapêutica parentérica, ceftriaxona intramuscular em dose única ou durante três dias, dependendo da evolução clínica.
Alergia à penicilina
Em crianças com hipersensibilidade tipo 1 à penicilina, podem utilizar-se claritromicina, eritromicina ou azitromicina, ajustando a duração terapêutica à gravidade clínica.
Nos casos de hipersensibilidade não tipo 1, a cefuroxima oral permanece uma alternativa segura.
Falência terapêutica
Se existir persistência ou agravamento dos sintomas após 48–72 horas de antibioterapia, é necessária nova observação clínica.
Nesta fase deve confirmar-se novamente o diagnóstico, excluir diagnósticos alternativos e procurar sinais de complicações.
Complicações
A progressão para mastoidite, labirintite, petrosite ou complicações intracranianas, incluindo meningite, abcessos, tromboses venosas ou empiema, exige referenciação urgente para observação hospitalar e otorrinolaringologia.
Quando não existem complicações mas persiste doença ativa, deve ser considerado escalonamento terapêutico. Se a otite média aguda não se confirmar, devem ser consideradas outras causas para o quadro clínico.