Intoxicação alcoólica aguda (10–24 anos) — Perguntas frequentes (FAQ)
1) O que abrange este algoritmo?
Este algoritmo orienta a abordagem da intoxicação alcoólica aguda em adolescentes e jovens (10–24 anos) no serviço de urgência, desde a avaliação ABCDE e identificação de sinais de gravidade até à decisão entre observação, investigação dirigida, internamento ou alta. Inclui ainda um bloco de avaliação pós-alta para consumo de risco e referenciação quando indicada.
2) Quais são os principais sinais de gravidade na intoxicação alcoólica?
Devem ser valorizados alteração do estado de consciência (Glasgow < 15 ou AVPU ≠ A), depressão respiratória ou hipoxemia, instabilidade hemodinâmica, convulsões, hipoglicemia, hipotermia, trauma significativo ou suspeita de TCE, e clínica desproporcional sugerindo co-ingestão. A presença de qualquer um destes critérios implica abordagem como IAA moderada a grave.
3) Porque é que a glicemia capilar é obrigatória?
A hipoglicemia pode ocorrer na intoxicação alcoólica, sobretudo em adolescentes com ingestão alimentar reduzida, vómitos, baixo peso ou em contexto de jejum. A glicemia deve ser avaliada na admissão e reavaliada conforme gravidade, porque a hipoglicemia pode justificar alteração do estado mental e agravar o risco de convulsões e depressão do sensorium.
4) Em que situações uma intoxicação pode ser considerada “leve”?
Considera-se IAA leve quando existe alteração comportamental típica (euforia, desinibição, verborreia), com AVPU = A, sinais vitais estáveis, exame neurológico sem défices e sem trauma ou outras complicações. Nestes casos, a conduta é observação, hidratação e reavaliação periódica, não sendo habitualmente necessário estudo analítico além da glicemia.
5) Quando devo suspeitar de co-ingestão de outras substâncias?
A suspeita de co-ingestão deve ser levantada quando a clínica é desproporcional ao consumo referido, quando há deterioração inesperada, alterações autonómicas marcadas, agitação extrema, sinais neurológicos atípicos ou ausência de recuperação esperada. A presença de miose e depressão respiratória deve fazer considerar opioides.
6) Qual é o papel da naloxona?
A naloxona deve ser considerada apenas quando existe suspeita clínica de intoxicação por opioides, nomeadamente miose e depressão respiratória que não é compatível com o nível de intoxicação alcoólica ou que não responde às medidas básicas de suporte. Deve ser administrada conforme protocolo local, mantendo em paralelo a estabilização e proteção da via aérea.
7) Que exames devo pedir e quando?
Para a maioria dos doentes com IAA leve, não são necessários exames além da glicemia. Nos casos moderados a graves ou com dúvida diagnóstica, deve ser feita investigação dirigida, podendo incluir ionograma e função renal, gasometria se houver alterações respiratórias/acidose, alcoolémia se houver dúvida clínica ou necessidade médico-legal, e rastreio toxicológico se houver suspeita de co-ingestão. A TC cranioencefálica deve ser ponderada em trauma suspeito, défices focais, deterioração neurológica ou ausência de recuperação esperada.
8) A descontaminação digestiva tem algum papel?
Na intoxicação isolada por etanol, a descontaminação digestiva não está indicada. Medidas como carvão ativado ou lavagem gástrica apenas são excecionalmente consideradas em co-ingestões selecionadas, muito precoces e com via aérea protegida, devendo seguir protocolos locais e avaliação risco-benefício.
9) Quando devo administrar tiamina?
A tiamina deve ser administrada em doentes com alcoolismo crónico, risco nutricional ou alteração importante do estado de consciência, para reduzir o risco de encefalopatia por défice vitamínico. A correção de hipoglicemia não deve ser atrasada; quando há risco nutricional, a tiamina pode ser administrada precocemente, idealmente antes ou em simultâneo com a glicose.
10) Quais são os critérios de internamento/observação prolongada?
Devem motivar internamento ou observação prolongada: persistência de alteração da consciência ou sinais vitais anormais, depressão respiratória, défices neurológicos focais, hipoglicemia recorrente/persistente, desidratação importante (vómitos/poliúria), co-ingestão relevante, trauma grave/suspeita de TCE, tentativa de suicídio ou incapacidade de garantir supervisão segura, incluindo situações de negligência ou contexto sociofamiliar desfavorável.
11) Quais são os critérios de alta segura?
A alta pode ser considerada quando existe recuperação completa do estado de consciência (baseline), sinais vitais estáveis, glicemia normal, ausência de complicações (aspiração, trauma relevante, co-ingestão) e garantia de supervisão segura e critérios sociais adequados. Deve ser assegurada orientação clara sobre sinais de alarme e necessidade de reavaliação.
12) O que inclui a avaliação pós-alta e quando devo referenciar?
Após a resolução do episódio agudo, deve ser feita avaliação do padrão de consumo, identificação de consumo habitual/de risco e pesquisa de psicopatologia associada. Na presença de consumo habitual ou risco significativo, deve ser ponderada referenciação para consulta de comportamentos aditivos. Se existir suspeita de psicopatologia relevante ou risco de autoagressão, deve ser considerada referenciação célere para avaliação especializada conforme a rede local.