Secreção fisiológica da insulina
A secreção fisiológica da insulina apresenta um padrão basal contínuo, sobre o qual surgem picos pós-prandiais bem definidos. Este modelo é a referência para compreender as curvas farmacocinéticas das insulinas exógenas e para ajustar o timing e a escolha do tipo de insulina ao padrão alimentar e ao risco de hipoglicemia.
Insulinas ultrarrápidas
As insulinas de ação ultrarrápida foram desenhadas para mimetizar a secreção prandial fisiológica. Incluem glulisina, aspart e lispro, bem como formulações de absorção acelerada. O início de ação ocorre em cinco a quinze minutos, o pico máximo em cerca de quarenta e cinco a setenta e cinco minutos, e a duração total é de duas a quatro horas. Este perfil permite administração imediatamente antes da refeição ou no início da ingestão, reduzindo hiperglicemia pós-prandial e hipoglicemias tardias.
Insulina regular — ação rápida
A insulina humana regular tem início de ação mais tardio, aproximadamente trinta minutos após a administração. O pico máximo ocorre entre duas e quatro horas e a duração prolonga-se por cinco a oito horas. Por este motivo, exige administração pré-prandial antecipada e associa-se a maior variabilidade glicémica, com risco de hipoglicemia quando o efeito persiste para além da absorção do aporte alimentar.
Insulina NPH — ação intermédia
A insulina NPH inicia o efeito cerca de duas horas após a administração, atinge pico entre quatro e oito horas e mantém atividade por aproximadamente doze horas. A presença de um pico mais pronunciado traduz-se em menor previsibilidade e maior risco de hipoglicemia, particularmente no período noturno, o que limita a sua adequação em muitos regimes intensivos.
Misturas de insulina
As misturas combinam uma fração prandial e uma fração intermédia. Nas misturas de análogos, o início de ação é tipicamente de dez a quinze minutos; nas misturas de insulina humana, o início é cerca de trinta minutos. O perfil apresenta dois picos, correspondendo às duas frações, e a duração global aproxima-se de doze horas. Estes esquemas simplificam a terapêutica, mas reduzem flexibilidade para ajustes finos conforme a refeição e a atividade.
Basal de ação prolongada — detemir
A insulina detemir inicia o efeito em torno de duas horas, sem pico definido, e tem duração aproximada de doze a dezoito horas. O perfil mais estável face à NPH reduz variabilidade, mas em muitos doentes pode ser necessária administração duas vezes por dia para garantir cobertura basal consistente.
Basal de ação prolongada — glargina U100
A glargina U100 também inicia em cerca de duas horas, sem pico, e tem duração típica de vinte a vinte e quatro horas. A libertação lenta e relativamente constante, por precipitação subcutânea, tende a reduzir hipoglicemias noturnas e flutuações glicémicas quando comparada com insulinas intermédias.
Basal de ação prolongada — glargina U300 e degludec
A glargina U300 mantém o mesmo mecanismo, mas com um perfil mais plano e sustentado ao longo do dia, oferecendo maior estabilidade glicémica. A degludec destaca-se por duração superior a quarenta horas, sem pico, permitindo maior flexibilidade de horário e, em geral, menor variabilidade e risco de hipoglicemia em doentes selecionados.
Integração clínica
Em síntese, a interpretação das curvas farmacocinéticas é central para individualizar a terapêutica com insulina. No controlo prandial, privilegiam-se perfis mais rápidos e curtos para reduzir hiperglicemia pós-prandial e hipoglicemias tardias. No controlo basal, perfis mais planos e prolongados contribuem para estabilidade e menor risco de hipoglicemia, sobretudo noturna. A decisão final deve integrar objetivos glicémicos, padrão alimentar, comorbilidades, capacidade de adesão e perfil de risco do doente, procurando aproximar-se, tanto quanto possível, da secreção fisiológica da insulina.