Avaliação inicial
Perante um utente com corrimento vaginal, a abordagem clínica deve iniciar-se pela caracterização dos sintomas associados,
em particular a presença de odor e de sinais irritativos como prurido ou ardor vulvar.
Estes elementos orientam a suspeita diagnóstica e permitem diferenciar entre as principais etiologias.
Sempre que possível, a avaliação deve incluir exame ginecológico, determinação do pH vaginal e microscopia direta ou testes rápidos.
Vaginose bacteriana
Na ausência de sintomas irritativos e perante odor intenso a peixe, o diagnóstico mais provável é a vaginose bacteriana.
O corrimento é tipicamente branco-acinzentado, fino e homogéneo, recobrindo de forma uniforme as paredes vaginais.
Aproximadamente metade das mulheres pode ser assintomática.
O tratamento está indicado em mulheres sintomáticas, em assintomáticas que vão ser submetidas a cirurgia ginecológica
e em grávidas com antecedentes de parto pré-termo ou aborto de segundo trimestre.
O parceiro masculino não necessita de tratamento; contudo, parceiras femininas devem ser tratadas se também forem portadoras.
A terapêutica de primeira linha inclui metronidazol oral 400–500 mg duas vezes ao dia durante 5–7 dias,
gel de metronidazol 0,75% intravaginal uma vez por dia durante 5 dias ou
clindamicina creme 2% intravaginal uma vez por dia durante 7 dias.
Como alternativa, pode ser utilizada clindamicina oral 300 mg duas vezes ao dia durante 7 dias.
Em formas recorrentes, é útil considerar metronidazol intravaginal duas vezes por semana durante 16 semanas.
Candidíase vulvovaginal
Quando o corrimento é inodoro e acompanhado de sintomas irritativos, como prurido e ardor vulvar,
a suspeita recai sobre candidíase vulvovaginal.
O corrimento apresenta-se branco, grumoso e espesso, aderente às paredes vaginais,
frequentemente associado a eritema, edema, fissuras e lesões cutâneas satélites.
O tratamento pode ser feito com fluconazol 150 mg oral em toma única ou com antifúngicos intravaginais,
como clotrimazol (500 mg em dose única ou 200 mg por 3 dias),
miconazol (1200 mg dose única ou 400 mg por 3 dias) ou econazol 150 mg em dose única.
Nos casos recorrentes, definidos como quatro ou mais episódios sintomáticos por ano,
recomenda-se uma fase de indução com fluconazol 150–200 mg oral uma vez por dia durante 3 dias consecutivos,
seguida de manutenção com fluconazol 100–200 mg oral uma vez por semana durante 6 meses.
Em grávidas, deve-se evitar a terapêutica oral e utilizar apenas formulações tópicas, preferencialmente durante 7 dias.
Tricomoníase
Na presença de corrimento com odor fétido e características espumosas em mais de 70% dos casos,
ou amarelo-esverdeadas em 10 a 30%, deve suspeitar-se de tricomoníase.
Os sintomas podem incluir prurido, disúria, eritema vulvar e colo do útero em “framboesa”.
O tratamento é obrigatório em todas as mulheres sintomáticas ou com diagnóstico confirmado,
assim como nos respetivos parceiros sexuais.
O esquema de primeira linha é metronidazol 400–500 mg oral duas vezes ao dia durante 7 dias,
sendo alternativas metronidazol 2 g oral em dose única ou tinidazol 2 g oral em dose única.
Em casos de recorrência, podem ser usados esquemas prolongados de nitroimidazóis em doses mais elevadas.
É essencial evitar ingestão de álcool durante o tratamento e nas 48 horas subsequentes ao metronidazol
(72 horas no caso do tinidazol).
Vaginite aeróbia / inflamatória
Em casos de vaginite aeróbia, o corrimento é tipicamente abundante, purulento e inodoro,
associado a ardor vulvar e dispareunia superficial.
O tratamento de primeira linha consiste em clindamicina 2% intravaginal durante 7–21 dias,
podendo ser associada hidrocortisona intravaginal 300–500 mg pelo mesmo período em casos mais graves.
Se houver atrofia concomitante, deve considerar-se terapêutica com estrogénio tópico.
Situações especiais
A abordagem deve ser ajustada em contextos de gravidez, imunossupressão ou episódios recorrentes.
Na gravidez, devem ser privilegiados esquemas tópicos com maior perfil de segurança.
Nos casos recorrentes, a confirmação laboratorial do diagnóstico é fundamental para excluir outras causas
e orientar adequadamente a terapêutica.