Avaliação inicial
A avaliação da hipertensão arterial inicia-se com uma correta medição da pressão arterial em consultório, seguindo critérios técnicos padronizados. O utente deve estar sentado, confortável, após pelo menos cinco minutos de repouso, evitando exercício físico, cafeína e tabaco nos trinta minutos prévios. Deve ser utilizado um dispositivo validado, com braçadeira adequada, e o braço apoiado ao nível do coração. Realizam-se três medições consecutivas, registando-se a média das duas últimas. Na primeira avaliação, a pressão arterial deve ser medida em ambos os braços, utilizando-se como referência o braço com valores mais elevados.
Classificação dos valores tensionais
Valores inferiores a 120/70 milímetros de mercúrio definem pressão arterial não elevada, sendo suficiente repetir a avaliação em três a cinco anos. Valores entre 120 e 139 para a sistólica e 70 a 89 para a diastólica correspondem a pressão arterial elevada ou normal-alta, recomendando-se reavaliação até um ano. Nestes casos, deve ponderar-se a presença de hipertensão mascarada, recorrendo à automedição da pressão arterial no domicílio ou à monitorização ambulatória.
Confirmação diagnóstica
Quando a pressão arterial é igual ou superior a 140/90 milímetros de mercúrio, o diagnóstico de hipertensão arterial deve ser confirmado, idealmente por medições seriadas em consultório ou por métodos fora do consultório, preferencialmente AMPA ou MAPA. Em valores muito elevados, nomeadamente ≥180/110 mmHg, associados a sintomas ou lesão de órgão-alvo, o início da terapêutica não deve ser atrasado, podendo a confirmação formal ser realizada posteriormente.
Avaliação clínica global e lesão de órgão-alvo
Confirmado o diagnóstico, deve proceder-se a uma avaliação clínica abrangente, incluindo fatores de risco cardiovasculares, história pessoal e familiar, e fatores relacionados com o estilo de vida, como tabagismo, consumo de álcool, ingestão de sal e nível de atividade física. Devem ainda ser pesquisados sinais e sintomas sugestivos de lesão de órgão-alvo a nível neurológico, cardíaco, renal e vascular periférico.
Suspeita de hipertensão secundária
A possibilidade de hipertensão secundária deve ser considerada perante início em idade jovem, hipertensão grau 2 ou 3, progressão rápida ou dificuldade no controlo tensional. Devem ser investigadas causas renais, endócrinas, farmacológicas e associadas à síndrome de apneia obstrutiva do sono.
Estudo complementar inicial
O estudo inicial inclui hemograma, glicemia em jejum e ou hemoglobina A1c, perfil lipídico completo, ionograma, creatinina sérica com estimativa da taxa de filtração glomerular, exame sumário de urina com rácio albumina-creatinina e eletrocardiograma. Exames adicionais, como ecocardiograma, doppler carotídeo ou fundoscopia, podem ser realizados em situações selecionadas.
Estratificação do risco cardiovascular
A estratificação do risco cardiovascular global baseia-se numa abordagem integrada que considera o grau de pressão arterial, os fatores de risco, a presença de lesão de órgão-alvo e as comorbilidades associadas. Esta avaliação é fundamental para orientar a decisão terapêutica e a intensidade do tratamento.
Tratamento não farmacológico
A intervenção no estilo de vida é recomendada a todos os utentes e inclui alimentação equilibrada, redução do consumo de sal, cessação tabágica, moderação no consumo de álcool, controlo ponderal e prática regular de exercício físico, idealmente trinta a sessenta minutos, quatro a sete dias por semana.
Tratamento farmacológico
A decisão de iniciar terapêutica farmacológica depende dos valores tensionais e do risco cardiovascular. Na hipertensão grau 1, em utentes com risco baixo ou moderado, pode aguardar-se três a seis meses de medidas não farmacológicas. Na hipertensão grau 2, o tratamento deve ser iniciado de imediato. Na hipertensão grau 3, recomenda-se iniciar com associação de dois fármacos em comprimido único, excetuando idosos frágeis ou utentes com risco baixo.
Objetivos terapêuticos
As metas de pressão arterial devem ser individualizadas. Entre os dezoito e os sessenta e quatro anos, o objetivo é uma pressão sistólica próxima de 130 milímetros de mercúrio, se tolerado, evitando valores inferiores a 120. Em indivíduos com 65 anos ou mais, o alvo situa-se entre 130 e 139 para a sistólica e 70 a 79 para a diastólica.
Abordagem em situações especiais e seguimento
A escolha terapêutica deve ser adaptada às comorbilidades, como doença arterial coronária, doença renal crónica, insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida ou fibrilhação auricular. Se, apesar da otimização terapêutica, a pressão arterial permanecer não controlada com três classes farmacológicas, deve ser considerada hipertensão resistente, ponderando-se referenciação hospitalar. O seguimento regular é essencial para avaliar eficácia, adesão e tolerabilidade do tratamento.