Indicações e enquadramento
A terapêutica farmacológica para cessação tabágica aumenta de forma significativa as taxas de abstinência, sobretudo em fumadores com dependência moderada a elevada. As principais classes atualmente recomendadas incluem substitutos de nicotina (NRT), vareniclina, citisiniclina e bupropiom. A escolha deve considerar o perfil clínico do doente, comorbilidades, preferências individuais e experiência prévia de tentativas de cessação.
Substitutos de nicotina (NRT)
Os NRT podem ser usados em monoterapia ou em combinação. Os adesivos fornecem libertação contínua ao longo do dia, enquanto as formas de curta ação (goma, pastilha, spray) permitem controlo de cravings e situações desencadeantes. A associação de adesivo com forma rápida é mais eficaz do que a monoterapia. Os NRT são geralmente bem tolerados e podem ser utilizados na maioria dos doentes com doença cardiovascular estável, devendo ser evitados apenas na presença de eventos cardiovasculares muito recentes. Situações como hipertensão não controlada, gravidez ou adolescência requerem ponderação e eventual monitorização.
Vareniclina
A vareniclina é um agonista parcial dos recetores nicotínicos, com elevada eficácia como monoterapia. Requer titulação durante uma a duas semanas antes da data prevista de cessação. Os efeitos adversos mais comuns incluem náusea, insónia e sonhos vívidos. Os dados atuais não demonstram aumento significativo de eventos psiquiátricos graves, mas recomenda-se vigilância em doentes com antecedentes psiquiátricos maiores. O prolongamento terapêutico pode ser útil em casos de elevada dependência ou recaídas prévias.
Citisiniclina
A citisiniclina, também agonista parcial nicotínico, utiliza um esquema de 25 dias com redução progressiva da dose, obrigando o doente a suspender o tabaco até ao quinto dia de tratamento. Apresenta eficácia semelhante à vareniclina e frequentemente superior aos NRT ou ao bupropiom. Os efeitos adversos mais frequentes incluem queixas gastrointestinais ligeiras, cefaleia e irritabilidade. Hipertensão, diabetes e doença cardiovascular estável são consideradas situações de precaução e não contraindicações absolutas.
Bupropiom
O bupropiom atua sobre a recaptação de noradrenalina e dopamina e pode ser particularmente útil em doentes com sintomas depressivos ou preocupação com aumento de peso. É contraindicado em situações que aumentam o risco de convulsão, incluindo epilepsia, história de anorexia/bulimia ou suspensão recente de álcool e benzodiazepinas. Em doentes com dependência elevada, pode ser associado a NRT.
Estratégias de associação
Várias combinações apresentam benefício adicional em abstinência, nomeadamente NRT de libertação prolongada com forma rápida, e NRT com vareniclina ou com bupropiom em doentes selecionados. A ausência de ganho terapêutico justifica evitar a associação de vareniclina com bupropiom em rotina.
Intervenção comportamental
A terapêutica farmacológica deve ser integrada com intervenção comportamental estruturada. Técnicas como aconselhamento breve, acompanhamento programado e educação sobre cravings e prevenção de recaídas aumentam significativamente a eficácia global das estratégias de cessação.
Seguimento e prevenção de recaída
Após a cessação, a vigilância clínica deve focar-se na gestão de sintomas de abstinência, no suporte motivacional e na identificação precoce de gatilhos de recaída. O prolongamento terapêutico ou a mudança de classe pode ser necessário em dependência elevada, recaídas ou respostas parciais. A decisão deve ser individualizada e orientada por tolerabilidade, preferência e comorbilidades.