Perguntas frequentes — Estratificação do risco cardiovascular
1) O que é o risco cardiovascular absoluto?
Corresponde à probabilidade de ocorrência de eventos cardiovasculares fatais ou não fatais (enfarte, AVC, morte súbita) num determinado período, geralmente 10 anos. É calculado com base na pressão arterial, fatores de risco clássicos, lesão de órgão-alvo e doença cardiovascular ou renal estabelecida.
2) Quais são os principais fatores de risco clássicos?
Idade avançada (≥55 anos no homem; ≥65 na mulher), sexo masculino, tabagismo, dislipidemia (colesterol total ≥190 mg/dL, LDL >115 mg/dL, HDL baixo, triglicerídeos >150 mg/dL), glicemia em jejum elevada (102–125 mg/dL), obesidade (IMC ≥30) ou obesidade abdominal (perímetro ≥102 cm no homem; ≥88 cm na mulher), e história familiar de doença cardiovascular prematura.
3) O que é HMOD (lesão de órgão-alvo mediada pela hipertensão)?
Refere-se a alterações estruturais ou funcionais precoces em órgãos-alvo, ainda sem manifestações clínicas. Exemplos: hipertrofia ventricular esquerda, espessamento da íntima-média carotídea ou placas ateroscleróticas, índice tornozelo-braço <0,9, velocidade de onda de pulso >10 m/s, TFG 30–59 mL/min/1,73 m² ou microalbuminúria (30–300 mg/24 h).
4) O que significa Estádio 1, 2 e 3 na grelha de risco ESC/ESH?
Estádio 1: sem lesão de órgão, DCV ou DRC, apenas fatores de risco.
Estádio 2: presença de HMOD, DRC G3 ou DM sem lesão.
Estádio 3: doença cardiovascular estabelecida, DRC ≥G4 ou DM com lesão de órgão.
5) Como se classificam as categorias de pressão arterial?
Normal-alta: PAS 130–139 ou PAD 85–89 mmHg
HTA Grau 1: PAS 140–159 ou PAD 90–99 mmHg
HTA Grau 2: PAS 160–179 ou PAD 100–109 mmHg
HTA Grau 3: PAS ≥180 ou PAD ≥110 mmHg
6) Como interpretar a grelha de estratificação do risco?
Combina-se a categoria tensional com o estádio da doença e o número de fatores de risco. Cada célula da grelha indica o risco absoluto: baixo, moderado, elevado ou muito elevado. A presença de HMOD, DRC ou DCV clinicamente manifesta reclassifica automaticamente para risco mais alto.
7) Quando um doente é considerado de risco muito elevado?
Quando existe doença cardiovascular clínica (enfarte, AVC, angina, revascularização, insuficiência cardíaca, fibrilhação auricular, doença arterial periférica), DRC G3b–G5 (TFG <60), proteinúria >300 mg/dia ou diabetes com lesão de órgão (microalbuminúria, HVE, retinopatia).
8) Qual a diferença entre risco “elevado” e “muito elevado”?
Risco elevado: presença de múltiplos fatores de risco ou HTA Grau 2–3 sem HMOD/DCV. Risco muito elevado: qualquer lesão de órgão-alvo, DRC ≥G3, diabetes com lesão ou doença cardiovascular estabelecida.
9) Como o risco influencia o tratamento?
Define a intensidade da terapêutica anti-hipertensora, as metas tensionais (quanto maior o risco, mais rigorosa a meta) e a necessidade de tratamentos preventivos adicionais — como estatinas, antiagregantes ou controlo glicémico intensivo.
10) Que exames complementares ajudam na deteção de HMOD?
ECG/Ecocardiograma (HVE), Doppler carotídeo (espessura ou placas), índice tornozelo-braço, velocidade de onda de pulso, TFG e creatinina, urina (albuminúria/proteinúria), e fundoscopia (retinopatia hipertensiva).
11) Como reavaliar o risco ao longo do tempo?
O risco deve ser reavaliado anualmente ou após modificações terapêuticas. A regressão de HMOD, o controlo da PA e a redução de fatores de risco (tabaco, lípidos, peso, glicemia) podem reclassificar para patamar inferior.
12) Qual o objetivo final da estratificação?
Permitir uma abordagem personalizada e prognóstica, ajustando o tratamento à gravidade do risco cardiovascular absoluto, prevenindo eventos fatais e não fatais e reduzindo a mortalidade global.