Consumo de álcool — Perguntas frequentes (FAQ)
1) O que abrange este algoritmo?
O algoritmo orienta a deteção precoce e a intervenção breve no consumo de álcool em adultos, desde a quantificação em bebidas padrão até ao rastreio com AUDIT-C e, quando indicado, aplicação do AUDIT completo. Integra a estratificação por gravidade (baixo risco, consumo de risco, consumo nocivo e provável dependência), define a intensidade da intervenção e clarifica critérios de referenciação e de seguimento.
2) O que é uma “bebida padrão” e como se calcula?
Uma bebida padrão corresponde aproximadamente a 10–12 g de álcool puro. Na prática clínica, pode estimar-se como ~330 mL de cerveja (~5%), ~100–120 mL de vinho (~12%) ou ~30 mL de bebidas espirituosas (~40%). Para maior precisão, pode usar-se a fórmula: g de álcool = mL × % × 0,789 ÷ 100, e converter para bebidas padrão dividindo por 10–12.
3) Quando devo aplicar o AUDIT-C e quando devo avançar para o AUDIT completo?
O AUDIT-C é um instrumento breve para rastreio inicial. Um resultado positivo (cut-offs usuais: homem ≥5 e mulher ≥4) sugere padrão de consumo de risco e deve motivar a aplicação do AUDIT completo para estratificação mais precisa e orientação da intervenção. Mesmo com AUDIT-C negativo, a avaliação deve ser aprofundada se existirem suspeitas clínicas ou consequências atribuíveis ao álcool.
4) Como interpretar o AUDIT total?
A interpretação frequente do AUDIT é: 0–7 (baixo risco), 8–15 (consumo de risco), 16–19 (consumo nocivo) e ≥20 (provável dependência). A estratificação deve ser sempre integrada com a clínica, comorbilidades e contexto psicossocial.
5) O que define “consumo nocivo” e porque é importante não depender apenas do score?
O consumo nocivo caracteriza-se pela existência de dano físico, psicológico ou social atribuível ao álcool, independentemente da pontuação. Um AUDIT 16–19 sugere fortemente consumo nocivo, mas um AUDIT 8–15 pode também corresponder a consumo nocivo se já existirem consequências clínicas (ex.: agravamento de HTA, hepatopatia, conflitos familiares, absentismo, quedas). Nestes casos, a intensidade da intervenção deve ser superior à intervenção breve padrão.
6) O que é a intervenção breve e como aplicá-la no consumo de risco?
A intervenção breve é uma abordagem estruturada, geralmente de poucos minutos, centrada no utente, com feedback do risco, definição de metas e estratégias concretas de mudança. No consumo de risco, recomenda-se aconselhamento claro para redução, definição de objetivos mensuráveis (p.ex. limites por ocasião/semana), estratégias comportamentais (dias sem álcool, evitar binge, alternar bebidas) e reavaliação em 4–12 semanas com repetição de AUDIT-C ou monitorização de consumos.
7) Como adaptar a intervenção no consumo nocivo?
No consumo nocivo, a intervenção deve ser mais intensificada: clarificar as consequências atribuíveis ao álcool, definir um plano estruturado (redução ou abstinência conforme risco), avaliar comorbilidades médicas e psiquiátricas e programar follow-up precoce em 2–6 semanas. Deve considerar-se apoio psicológico/motivacional e referenciação se houver falha repetida, dano importante ou suspeita de dependência.
8) O que devo incluir na abordagem de “provável dependência”?
Perante AUDIT ≥20, deve priorizar-se a segurança e a ligação a cuidados especializados. É essencial avaliar risco de síndrome de abstinência, evitar cessação abrupta sem supervisão médica em casos de consumo elevado e programar referenciação prioritária (consulta/equipa de dependências, psiquiatria ou medicina interna conforme contexto). Em paralelo, deve tratar-se comorbilidade médica/psiquiátrica e manter suporte motivacional.
9) O que é binge drinking e como influencia a decisão clínica?
O binge drinking corresponde a consumo elevado numa única ocasião (frequentemente definido como ≥6 bebidas padrão numa ocasião; algumas definições usam cut-off inferior em mulheres). Este padrão está associado a maior risco de traumatismos, violência, intoxicação aguda e consequências cardiometabólicas. Mesmo sem AUDIT total muito elevado, a presença de binge recorrente justifica intervenção dirigida, definição de estratégias para evitar episódios e follow-up mais próximo.
10) Quais são os “sinais de alarme” que exigem abordagem urgente ou referenciação imediata?
Devem motivar abordagem prioritária: suspeita de abstinência moderada/grave ou convulsões prévias por abstinência, consumo diário muito elevado, ideação suicida/depressão grave, violência ou risco social significativo, gravidez com consumo relevante, e complicações médicas graves atribuíveis ao álcool (p.ex. pancreatite, hepatopatia descompensada, quedas recorrentes). Nestes cenários, a decisão não deve depender apenas do score.
11) Quando devo reavaliar e como monitorizar a resposta?
No consumo de risco, recomenda-se reavaliação em 4–12 semanas; no consumo nocivo, em 2–6 semanas; e na provável dependência, follow-up mais curto e/ou contacto para garantir referenciação e segurança. A monitorização pode ser feita com repetição de AUDIT-C, registo de consumos (bebidas padrão/semana), avaliação de consequências clínicas e revisão do plano de mudança.