Avaliação inicial
O rastreio do cancro colorretal destina-se a indivíduos assintomáticos e inicia-se pela correta seleção dos candidatos. É essencial excluir situações que não se enquadram em contexto de rastreio, nomeadamente sintomas sugestivos de patologia colorretal, antecedentes pessoais de cancro do cólon e reto, doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias. Nestes casos, o doente deve ser orientado para uma abordagem diagnóstica ou de seguimento especializado, fora do circuito de rastreio.
Estratificação do risco
Após exclusão de critérios que afastam o rastreio, o passo seguinte é a estratificação do risco individual. Distingue-se o risco médio, típico da população geral, do risco acrescido, associado sobretudo a história familiar relevante. A presença de um familiar de primeiro grau com cancro colorretal em idade jovem, ou de múltiplos familiares de primeiro grau afetados, redefine a estratégia de rastreio e condiciona a escolha do método e dos intervalos de seguimento.
Rastreio no risco médio
Nos indivíduos de risco médio, entre os 50 e os 74 anos, o rastreio baseia-se na pesquisa de sangue oculto nas fezes por método imunoquímico (FIT), realizada de forma periódica. Um resultado negativo permite a continuidade do rastreio segundo o intervalo recomendado. Um FIT positivo implica a realização de colonoscopia total como exame de confirmação diagnóstica.
Rastreio no risco acrescido
Nos utentes com risco acrescido, a colonoscopia é o teste de rastreio primário, devendo ser iniciada mais precocemente, habitualmente a partir dos 40 anos. Mesmo perante uma colonoscopia normal, estes doentes não regressam ao rastreio populacional por FIT, mantendo vigilância endoscópica periódica, refletindo o seu risco basal superior.
Qualidade da colonoscopia
A interpretação da colonoscopia deve ter em conta a qualidade do exame. Uma colonoscopia incompleta ou realizada com preparação inadequada compromete a fiabilidade diagnóstica e deve ser repetida em prazo curto, garantindo uma avaliação adequada de todo o cólon antes de qualquer decisão de seguimento ou vigilância.
Interpretação dos achados endoscópicos
Quando a colonoscopia é normal ou identifica apenas lesões de baixo risco, a conduta depende do grupo de risco. Nos utentes de risco médio, está indicado o regresso ao rastreio populacional. Nos utentes de risco acrescido, mesmo na ausência de lesões relevantes, mantém-se vigilância por colonoscopia, habitualmente com intervalos de cinco anos.
Vigilância pós-polipectomia
A necessidade de vigilância endoscópica após polipectomia depende da estratificação de risco. Adenomas de maior dimensão, displasia de alto grau, múltiplos adenomas ou lesões serradas com critérios de risco justificam colonoscopia de vigilância em intervalos mais curtos, tipicamente de três anos. Lesões de baixo risco não justificam vigilância endoscópica intensiva.
Situações especiais
A excisão incompleta de pólipos, sobretudo de grandes dimensões, requer repetição precoce da colonoscopia. Uma carga adenomatosa elevada levanta a suspeita de síndromes hereditárias e pode justificar avaliação genética. A vigilância deve ser sempre individualizada, ponderando idade, comorbilidades e benefício clínico esperado.
Referenciação hospitalar
A identificação de neoplasia invasiva na colonoscopia implica saída imediata do circuito de rastreio e referenciação hospitalar muito prioritária. Outras situações clínicas relevantes, como doença inflamatória intestinal ou lesões complexas, requerem também referenciação hospitalar, com prioridade ajustada à gravidade e ao risco associado.
Manutenção e seguimento
O seguimento após rastreio ou vigilância deve ser estruturado e proporcional ao risco. Uma abordagem sistemática permite evitar tanto a sobreutilização da colonoscopia em indivíduos de baixo risco como a subvalorização de situações com potencial neoplásico significativo, promovendo uma prática clínica mais segura, racional e alinhada com as recomendações atuais.