Avaliação inicial
Perante um lactente com suspeita de bronquiolite aguda, a abordagem deve iniciar-se pela confirmação do contexto clínico típico. Habitualmente existe um quadro inicial de infeção das vias respiratórias superiores, com coriza, obstrução nasal e tosse, seguido de aparecimento progressivo de dificuldade respiratória. O exame objetivo pode revelar taquipneia, aumento do trabalho respiratório, fervores e, em alguns casos, sibilos.
A bronquiolite é essencialmente um diagnóstico clínico. Exames complementares, radiografia torácica ou testes laboratoriais não devem ser realizados por rotina, uma vez que raramente alteram a abordagem e podem conduzir a intervenções desnecessárias. A avaliação deve centrar-se em parâmetros simples e objetivos: estado geral, frequência respiratória, esforço respiratório, alimentação, hidratação e saturação periférica de oxigénio. Sempre que possível, a SpO₂ deve ser avaliada após desobstrução nasal.
Estratificação da gravidade
Após a avaliação inicial, é fundamental estratificar a gravidade. A maioria dos casos é ligeira e pode ser orientada em ambulatório, mas alguns lactentes podem deteriorar-se rapidamente, sobretudo entre o 3.º e o 5.º dia de evolução.
Devem ser valorizados sinais como taquipneia marcada, tiragem intensa, adejo nasal, gemido, episódios de apneia, cianose, prostração, letargia, sinais de desidratação ou redução importante da ingestão alimentar.
Fatores de risco
A presença de fatores de risco deve baixar o limiar de referenciação. São particularmente relevantes a idade inferior a 6–12 semanas, prematuridade, doença pulmonar crónica, cardiopatia congénita hemodinamicamente significativa, imunodeficiência, patologia neurológica ou neuromuscular e síndrome de Down.
Nestes grupos, mesmo quadros aparentemente moderados podem justificar observação hospitalar, uma vez que apresentam maior probabilidade de agravamento clínico.
Tratamento
O tratamento da bronquiolite é essencialmente de suporte. Inclui desobstrução nasal com soro fisiológico, alimentação fracionada, manutenção de hidratação adequada, controlo da febre e vigilância de sinais de agravamento.
A educação dos cuidadores é uma parte central da abordagem, explicando a evolução esperada, os sinais de alarme e a possibilidade de persistência da tosse durante várias semanas.
Terapêuticas não recomendadas
As terapêuticas farmacológicas não devem ser utilizadas por rotina. Antibióticos, broncodilatadores, corticoides, antitússicos, expetorantes, anti-histamínicos, descongestionantes, humidificadores e fisioterapia respiratória não demonstram benefício consistente na maioria dos casos.
A utilização destas intervenções pode aumentar custos, efeitos adversos e conduzir a tratamentos desnecessários sem melhoria comprovada da evolução clínica.
Suporte respiratório hospitalar
Em contexto hospitalar, a oxigenoterapia pode ser necessária perante hipoxemia persistente. A cânula nasal de alto fluxo (HFNC) pode ser considerada em lactentes com esforço respiratório significativo ou agravamento apesar de oxigénio convencional.
O objetivo é reduzir o trabalho respiratório e melhorar a oxigenação, sendo utilizada sobretudo em casos moderados a graves.
Conclusão
Em síntese, a abordagem da bronquiolite assenta numa sequência simples: confirmar o diagnóstico clínico, avaliar a gravidade após desobstrução nasal, identificar fatores de risco, decidir entre vigilância domiciliária ou referenciação hospitalar e assegurar medidas de suporte adequadas.
Esta estratégia permite evitar intervenções desnecessárias e reconhecer precocemente os lactentes com maior risco de agravamento.