Definição e epidemiologia
O aneurisma da aorta abdominal define-se como uma dilatação focal da aorta com um diâmetro pelo menos 1,5 vezes superior ao esperado para o vaso, correspondendo habitualmente a um diâmetro igual ou superior a 30 mm. A sua prevalência aumenta progressivamente com a idade e é mais frequente nos homens, com uma proporção aproximada de quatro para um relativamente às mulheres.
Os aneurismas podem ser classificados de acordo com a sua relação anatómica com as artérias renais, distinguindo-se aneurismas suprarrenais, pararrenais, justarrenais e infrarrenais. A maioria dos casos é assintomática, sendo o diagnóstico frequentemente efetuado de forma incidental durante exames de imagem realizados por outros motivos.
Critérios para correção cirúrgica
A decisão de referenciação para avaliação cirúrgica depende sobretudo do tamanho do aneurisma e da sua velocidade de crescimento. Em geral, deve ser considerada correção cirúrgica quando o aneurisma atinge 55 mm nos homens ou 50 mm nas mulheres.
Além do diâmetro absoluto, deve ser valorizado o crescimento acelerado do aneurisma, uma vez que este se associa a maior risco de complicações e de rotura.
Vigilância imagiológica
Nos aneurismas que não cumprem critérios para correção cirúrgica, está indicada vigilância periódica através de ecografia abdominal.
Para aneurismas com diâmetro entre 30 e 40 mm, recomenda-se vigilância a cada três anos.
Nos aneurismas entre 40 e 45 mm nas mulheres e entre 40 e 50 mm nos homens, a vigilância deverá ser anual.
Quando o diâmetro se situa entre 45 e 50 mm nas mulheres ou entre 50 e 55 mm nos homens, recomenda-se vigilância semestral.
Crescimento rápido do aneurisma
Deve ser considerada vigilância mais apertada e eventual referenciação para Cirurgia Vascular quando existe crescimento rápido do aneurisma. Este é habitualmente definido por um aumento igual ou superior a 10 mm por ano ou igual ou superior a 5 mm em seis meses.
A identificação deste padrão de crescimento pode justificar reavaliação precoce da estratégia terapêutica, mesmo antes de serem atingidos os limiares habituais de diâmetro.
Controlo dos fatores de risco cardiovascular
Todos os doentes com aneurisma da aorta abdominal devem beneficiar de uma abordagem intensiva dos fatores de risco cardiovascular.
A cessação tabágica constitui uma das medidas mais importantes, estando associada a uma redução significativa da taxa de crescimento aneurismático e a menor risco de rotura.
A pressão arterial deve ser adequadamente controlada, com objetivo inferior a 140/90 mmHg ou, quando tolerado, inferior a 120/80 mmHg. Entre as opções terapêuticas, os antagonistas dos recetores da angiotensina e os beta-bloqueadores apresentam alguma evidência de benefício.
Terapêutica farmacológica complementar
A utilização de estatinas deve ser considerada sempre que clinicamente indicada, existindo evidência observacional que sugere menor progressão aneurismática e menor risco de rotura.
A metformina surge como uma estratégia promissora, estando associada em vários estudos observacionais a menor crescimento do aneurisma. Contudo, continuam a decorrer ensaios clínicos destinados a confirmar estes potenciais benefícios.
Relativamente à antiagregação plaquetária, o benefício específico no aneurisma da aorta abdominal permanece incerto. A utilização de aspirina em baixa dose não parece aumentar o risco de rotura, embora alguns estudos sugiram um prognóstico potencialmente menos favorável quando ocorre rotura em doentes sob terapêutica antiagregante.
Conclusão
A abordagem do aneurisma da aorta abdominal assenta na estratificação pelo diâmetro e velocidade de crescimento, na vigilância imagiológica adequada e no controlo rigoroso dos fatores de risco cardiovascular. A identificação precoce dos doentes com maior risco permite otimizar o momento da referenciação cirúrgica e reduzir o risco de complicações potencialmente fatais, nomeadamente a rotura aneurismática.